quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O Encontro

Quando Julio resolveu voltar para casa, já era quase noite, a roupa coberta de lama e suor denunciava sem rodeios a tarde divertida que passara jogando futebol na chuva. Andava mancando por causa da entrada dura de um zagueiro desatento. Ele também sabia que logo as dores musculares começariam a aparecer, pois não era nem um exemplo de atleta o que não o desanimava nem lhe tirava o desejo de jogar novamente, mas apesar da dor, ele mantinha um contagiante sorriso de satisfação em seu rosto.
Ao chegar a sua casa atravessou um estreito corredor lateral e entrou pela porta dos fundos, completamente exausto, respirou profundamente e bem de vagar, foi quando percebeu que havia esquecido alguma coisa muito importante só não sabia dizer qual era, e se realmente era tão importante assim, tirou a camisa e desabou no frio chão da cozinha onde ficou por algum tempo observando as pequenas imperfeições do forro de gesso que revestia o teto, motivo suficiente para que ele divagasse sobre sua vida e as pequenas e grandes falhas que cometera até então.
Levantou-se preguiçosamente no mesmo momento em que decidiu tomar um banho, caminhou para o quarto e olhou diretamente para o criado mudo onde estrategicamente colocara a foto de sua noiva em porta retratos bastante discreto, porém elegante. Ele não entedia muito bem como uma foto podia lhe trazer uma alegria tão repentina, talvez fosse o sorriso cativante estampado naquela figura. Foi tomar banho, passou minutos incontáveis embaixo do chuveiro recebendo o açoite de água fria, saiu do banho sem pressa e olhou mais uma vez para a foto, fixou seus olhos no sorriso e um profundo desespero tomou conta de si.
Finalmente lembrou-se da coisa muito importante que havia esquecido. Lembrou-se que havia marcado um encontro com sua noiva exatamente às 17 horas. Olhou ansiosamente para o relógio e teve a certeza daquilo que era apenas uma dúvida, estava muito atrasado, mais ou menos umas 2 horas: Ela vai comer meu fígado! Pensou em voz alta enquanto pegava as roupas de seu armário. Arrumou-se desajeitadamente a caminho do carro e saiu o mais rápido que podia, tomando a avenida principal como rota mais curta entre a sua casa e a de sua noiva.
No caminho refletia sobre como uma pessoa de sorriso tão cativante podia se tornar um monstro comedor de fígados em questão segundos. Sorriu meio sem jeito e repreendeu a si mesmo pelo pensamento bobo, quando o que deveria fazer era arranjar uma boa desculpa para o atraso. Achou estranho o fato dela não haver ligado uma única vez, pegou celular para verificar as chamadas não atendidas, foi quando notou que ele estava desligado: Sou um homem morto! Murmurou inconformado. Ela deve ter ligado uma centena de vezes!
O trânsito caminhava lento devido a um acidente, um caminhão que transportava alimentos havia tombado cerca de 300 metros a sua frente, a população avançava feroz sobre os produtos espalhados pelo chão da rodovia enquanto meia dúzia de policiais tentava conter inutilmente o saque. Julio não pensou duas vezes antes de subir o canteiro central a fim de buscar outro caminho que o levasse a seu destino o mais rápido possível. Ao final da manobra ele ouviu o apito do agente de transito o qual só viu pelo retrovisor: Era só o que faltava, uma multa! Pisou fundo e seguiu para o seu destino.
Subiu correndo as escadas que levavam ao apartamento de sua noiva, ainda não havia pensado em nenhuma desculpa satisfatória que justificasse sua falha. Quase sem ar e com a cabeça baixa ele parecia pronto para receber o castigo de seu carrasco, parou em frente à porta e tocou a campainha varias vezes sem obter resposta. Ainda ofegante levantou a cabeça e notou que havia um bilhete com o seu nome pregado na porta, sem cerimônias leu o recado que estava endereçado a ele:

Amor, consegui uma vaga naquele salão de beleza disputadíssimo que te falei, liguei varias vezes para desmarcar o nosso encontro, mas o seu celular estava desligado. Me liga assim que você puder. Te amo.
P.S: Vamos sair mais tarde, minha amiga disse que tem um novo sushi bar na cidade e que ele é ótimo.


Julio encostou de costas na parede do corredor e deslizou devagar até o chão, respirou devagar, olhou para o teto e observou calmamente suas imperfeições, ligou o aparelho celular, buscou o numero de sua noiva, colocou a mão esquerda no chão e gargalhou feito criança.


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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Depois

Podia sentir o cheiro do mato molhado e da umidade em toda parte. De olhos fechados tentando aumentar a capacidade de percepção dos outros sentidos, permanecia inteiramente imóvel à espera que alguma coisa acontecesse.
Os pés cobertos por uma mistura de lama e musgo permitia o passeio tranqüilo de vermes e alguns insetos, mas sem causar qualquer tipo de asco ou incomodo, ao invés disso, sentiu a vida se renovando através de seu ciclo natural. O frio tornou-se um companheiro fiel por alguns instantes, mas logo desapareceu.
O olfato percebeu por instantes o perfume fúnebre das flores que foram depositadas em algum lugar que não podia ver. O gosto do sangue também desapareceu durante os minutos seguintes. O som das gotas feitas de água e sal parecia uma percussão ritmada ao atingir o solo revirado, mas isso também durou pouco.
A luz não fazia falta, aliás, nunca fez, bastava apenas a compreensão da escuridão. Depois disso nada aconteceu.

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