Mais um dia de luta começava naquele instante, mais uma batalha a ser vencida, sim ele era um vencedor, era o que todos lhe diziam, garoto nascido em Xapuri filho de seringueiro e que só aprendeu a ler aos 20 anos de idade, hoje ele era um homem reconhecido e respeitado no mundo todo, por sua coragem e ousadia ao enfrentar os poderosos latifundiários da Amazônia. Para alguns ele era um ambientalista, para outros um sindicalista, mas ele se definia apenas como um simples seringueiro defendendo o seu pão de cada dia.
Pegou a toalha que estava esta em cima de uma cadeira do lado esquerdo da velha cama de casal, calçou seus chinelos de couro e saiu em direção à cozinha. Ao chegar à porta parou, observou sua companheira por alguns segundos enquanto ela colocava sobre a mesa uma toalha fina na cor vermelha, depois caminhou lentamente até ela e lhe deu um beijo, acariciando-lhe os cabelos, perguntou pelas crianças e recebeu um olhar indicador como resposta. Sem falar mais nada foi até a porta que dava acesso ao quintal, retirou as trancas que a cerrava e finalmente a abriu.
Naquele instante ele pôde sentir o sol em seu rosto e ouvir um forte barulho seguido por um intenso calor em seu peito, pôde ouvir também um grito feminino e o choro de suas crianças. Viu sobre si o vermelho da tolha de mesa, ouviu os gritos de ordem das diversas manifestações que participara em defesa da floresta. Viu auditórios lotados e atentos esperando por suas palavras. Viu a cadeia, amigos, alegrias, tristezas. Viu o mundo inteiro engajado para salvar a sua casa, a sua mata. Ouviu o silêncio das autoridades brasileiras... Depois não ouviu mais nada.
Fitou finalmente seu olhar nas copas das árvores perguntado em seu íntimo se tudo que tinha feito e vivido até aquele momento tinha valido a pena e imediatamente recebeu sua resposta ecoada pela floresta na voz agradecida da mãe natureza. Tudo valerá a pena, se a alma não for pequena.

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