segunda-feira, 26 de outubro de 2009

PROCISSÃO

Uma paisagem em um andor.
Flores mortas celebrando passos.
Parados como o vôo de um beija-flor
Quilometros de lágrimas deixadas ao chão.
O medo de uma criança em meio a uma multidão.
Formam o retrato de uma idéia,
Onde a vida não passa de uma procissão.

(Tony Ferreira)


Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Histórias de Terror

Pessoas em suas vidas cotidianas diante situações improváveis que vão além do que se possa imaginar. Esse é o contexto ideal para uma boa historia do autor norte americano Stephen King, considerado um dos maiores autores de terror da atualidade, nada comparado a H. P. Lovecraft e seu perturbador Dagon, é claro. Mas de qualquer forma um dos grandes mestres desse gênero com certeza.
King explora com bastante eficácia os laços de amizade e família em seus textos, ora por outra nos fazendo sentir parte de suas histórias. O terror de King pode vir na forma de poderes psíquicos, alienígenas tentando invadir a terra, experiências militares mal sucedidas, monstros que se alimentam de carne humana ou na forma de injustiça. O fato é que, o foco principal de sua obra não é o terror em si, mas as relações humanas diante de situações extremas.
Para quem ainda não ligou o criador à criatura cito abaixo algumas obras que se tornaram mais conhecidas do grande público graças às adaptações para o cinema, vale também ressaltar que King não é conhecido apenas pelo gênero terror, mas também por seus dramas. Segue a lista: It, O Apanhador de Sonhos, Carrie, a Estranha, O Iluminado, O Nevoeiro, O Cemitério Maldito, Um Sonho de Liberdade, A Espera de um Milagre, Conta Comigo, etc.
O terror sempre fez e sempre fará parte da história da humanidade, seja ele ficcional ou não. Histórias de assombrações, violência urbana, o demônio e seu inferno, o holocausto, tudo isso pode ser exemplo do que nos causa o medo, além de inúmeras outras coisas também, que impreguinam nossas mentes formando uma espécie de teia que nos impede de agir, de falar ou mesmo de pensar de maneira sóbria. Veja bem, não estou dizendo que o medo é ruim, pelo contrário ele é bom, pois funciona como uma ferramenta de auto-preservação, eficaz até demais, mas nas mãos erradas e acompanhado pelo terror ele se torna uma arma.
Grande parte de nossas decisões racionais são tomadas sob a influência direta do medo, medo de errar, de falar a verdade, de não magoar, do castigo de deus, etc. Mas e quando estamos diante de situações incomuns, onde o medo toma proporções cataclísmicas nos levando ao extremo da sanidade? Que decisões nós somos capazes de tomar? É Nessa hora, onde não existe o certo ou errado e muito menos a doentia moral, que verdadeira mente saberemos do que somos capazes.
Todo mundo tem sua própria história de terror para contar. Guardadas suas devidas proporções, todas são muito parecidas, todas tem uma mesma origem, o medo. E você pode achar que a sua solução talvez esteja contida em uma Taurus calibre 38. Então sentar-se com ela nas mãos e observar por segundos infindáveis seu tambor girar freneticamente, como uma roleta, contendo uma solitária bala e com um único movimento de destreza, indispensável a um atirador, acomodar o tambor da arma em seu devido lugar ouvindo o som do metal se encaixando rapidamente, mover o cano até a altura da cabeça sem vacilar e ouvir o clique do gatilho que dispara o cão em direção ao local de onde o projétil deveria estar. Respirar fundo e repetir a operação mais uma vez. Então finalmente parar, pois não há coragem para outra tentativa e depois conviver com o terror de ter chegado tão perto do fim.
— Do que você é capaz de fazer?

Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O Futuro Kafkaniano

Kafka é o que há de mais depressivo na literatura mundial, são longas narrativas repletas de medos, angustias e derrotas, revelando a alma débil de um homem que jamais soube levantar-se diante das dificuldades.

Franz Kafka foi um dos maiores escritores de ficção da Língua alemã do século XX. Kafka nasceu numa família de classe média judia em Praga, Áustria-Hungria (agora República Tcheca). O corpo de obras suas escritas— a maioria incompleta e publicadas postumamente— destacam-se entre as mais influentes da Literatura ocidental.
A escrita de Kafka é marcada pelo seu tom despegado, imparcial, atenciosa ao menor detalhe, e que abrange os temas da alienação e perseguição. Os seus trabalhos mais conhecidos abrangem temas como as pequenas histórias A Metamorfose, Um artista da fome e os romances O Processo, América e O Castelo. Os seus contos são julgados como verdadeiros e realistas, em contato com o homem do século XXI, pois os personagens kafkanianos sofrem de conflitos existenciais, como o homem de hoje. No mundo kafkaniano, os personagens não sabem que rumos podem tomar, não sabem dos objetivos da sua vida, questionam seriamente a existência e acabam sós, diante de uma situação que não planejaram, pois todos os acontecimentos se viraram contra eles, não lhes oferecendo a oportunidade de se aproveitar da situação e, muitas vezes, nem mesmo de sair desta.

Apesar de tudo isso ele é um autor brilhante e dependendo de como se encara sua obra, ela tem muito a nos ensinar. Por isso além de ser meu autor favorito, também serve de inspiração pra alguns de meus contos, como o que verão a seguir:

O tempo

Já se passavam das 9h da manhã quando ele finalmente despertou de seu sono intranqüilo, ainda meio desorientado tentava levanta-se enquanto abria olhos. Sentou a beira da cama e estendendo o seu braço esquerdo e alcançou seus óculos que estavam sobre um velho criado mundo, móvel que fora feito sob encomenda, de uma madeira nobre que há muito tempo ele não lembrava o nome, era objeto bem simples que possuía uma gaveta com chave dourada e uma pequena porta trabalhada em detalhes coloniais, mas de grande valor sentimental, pois pertencera a seu avô nos áureos tempos de sua família, além dos óculos, estava também sobre ele um despertador verde, sem pilhas, do tipo comum vendido por qualquer camelô na esquina, e um livro antigo de páginas amareladas que falava alguma coisa sobre como conseguir amigos, aberto sem motivo aparente, na página setenta e dois onde se podia ler claramente a palavra “cordialidade”, destacada em uma elipse azul.
Colocou os óculos, e observou que as paredes de seu pequeno quarto estavam precisando de uma nova pintura, mas apesar da necessidade, o aspecto envelhecido de seu dormitório não o incomodava, e enquanto permanecia ali sentado e imóvel, o sol que entrava através do vidro cinzento da janela a sua frente, aquecia-lhe a pele de forma revigorante, causando-lhe uma sensação de alegria momentânea. Olhou novamente para as paredes descascadas, tomou fôlego, e em um único movimento levantou-se ao mesmo tempo em que estendia os braços para o alto, na tentativa de alongar seus músculos, e expelia todo o ar dos pulmões. Terminado o ritual do despertar, voltou sua atenção para a cama, de lençóis brancos desarrumados, e instantaneamente começou a colocá-la em ordem, da mesma forma que sua mãe o ensinara quando ainda era uma criança, gesto cotidiano que sempre lhe trazia boas lembranças.
Olhou com satisfação para o bom trabalho que acabara de realizar e congratulou a si mesmo com um sorriso espontâneo, passou a mão nos cabelos emaranhados partindo em direção ao banheiro. Foi quando veio à surpresa, ali bem diante dele, estava um velho de aspecto frágil e olhar distante, mas firme. Olhar de quem viu uma vida toda passar através de anos, como se fossem minutos. Parado sem mover um músculo, observando.
Passado o espanto inicial e percebendo a inatividade do velho, ele também não disse nada, apenas parou e repetindo o gesto de seu inesperado visitante, observou. Minutos de observância transformados em horas. Sem nada dizer, decidiu então ignorar a presença inoportuna do velho senhor de cabelos grisalhos, retomando seu caminho em direção ao banheiro de azulejos azuis, abriu o pequeno armário sobre a pia, retirou um tubo de creme dental, quase vazio, e uma escova de formato anatômico, que lhe fora indicada por seu dentista, apertou com força o tubo que expeliu uma pequena quantidade de pasta, escovou vigorosamente os dentes, de maneira continua, mas irregular, deixando formar uma espuma branca que escorria pelo queixo e pingava no chão, cuspiu o liquido que se formou em sua boca, abriu a torneira com a mão esquerda, e com a outra em forma de concha, capturou a água com a qual inundou sua boca, lavando o resto do creme.
Despiu-se, e como se fosse um imenso ato de coragem, partiu em direção ao banho frio sem vacilar. As gotas que caiam do chuveiro lhe atingiam como milhares de agulhas, o sabonete neutro, aliviava a dor e o xampu anticaspa ardia-lhe nos olhos. Em minutos estava tudo terminado, secou-se com uma toalha áspera de cor marrom, bastante desbotada, que estrategicamente tinha o seu lugar reservado ao lado do box do banheiro, agora completamente seco e nu, caminhou de volta ao seu quarto onde mais uma vez deparou-se com figura do velho, continuou ignorando-o. Foi em direção ao guarda-roupa, que comprara a pouco tempo, abriu uma das gavetas da qual retirou uma cueca de algodão, lançou-a em cima da cama. Da primeira porta do lado esquerdo, pegou uma camisa de linho azul, que lhe foi dada de presente por um amigo, diferente do que fizera com a cueca, depositou a camisa cuidadosamente sobre cama. Da segunda porta que estava ao seu lado direito, retirou uma calça preta, bastante usada, mas em bom estado, e a colocou junto à camisa em cima da cama. Feito isso, olhou mais uma fez em direção ao seu visitante, que continuava ali parado no mesmo lugar, algo começou a lhe parecer familiar naquela estranha figura, começou a gostar de sua presença, tendo em vista que sempre fora um solitário.
Vestiu-se, procurou o sapato que tinha as meias pretas cuidadosamente enroladas e enfiadas dentro dos mesmos, em baixo da cama onde havia deixado no dia anterior. Estando agora elegantemente vestido, faltava-lhe pentear o cabelo, caminhou em direção a um enorme espelho fixado na parede próxima ao banheiro, olhou em volta e surpreendeu-se ao não ver mais o seu visitante, mas também não deu muita importância ao fato dele haver sumido da mesma forma misteriosa como surgira. Voltou-se para o espelho e foi então que viu mais uma vez aqueles olhos distantes e firmes do velho. Ficou assustado ao descobrir que estivera observando a si mesmo, espantou-se ao descobrir suas rugas, foi tomado pelo terror ao constatar que ele não viu o tempo passar. Confuso e agitado deslocou-se rapidamente para trás tropeçando em suas próprias pernas, atingindo com a cabeça o velho móvel de família, e bem ali caído ao lado da cama, em um lago de sangue, como ultima tentativa de se levantar, apoiou-se em seu leito e trouxe para si os lençóis brancos, que havia arrumado com tanto zelo, respirou vagarosamente pela ultima vez, aproveitando ao máximo o resto da vida que não conseguia lembrar, fechou os olhos e desistiu.

Podemos alterar o futuro a qualquer momento, para isso, precisamos somente aprender a utilizar o presente.

Tony Ferreira

Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.