quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O Futuro Kafkaniano

Kafka é o que há de mais depressivo na literatura mundial, são longas narrativas repletas de medos, angustias e derrotas, revelando a alma débil de um homem que jamais soube levantar-se diante das dificuldades.

Franz Kafka foi um dos maiores escritores de ficção da Língua alemã do século XX. Kafka nasceu numa família de classe média judia em Praga, Áustria-Hungria (agora República Tcheca). O corpo de obras suas escritas— a maioria incompleta e publicadas postumamente— destacam-se entre as mais influentes da Literatura ocidental.
A escrita de Kafka é marcada pelo seu tom despegado, imparcial, atenciosa ao menor detalhe, e que abrange os temas da alienação e perseguição. Os seus trabalhos mais conhecidos abrangem temas como as pequenas histórias A Metamorfose, Um artista da fome e os romances O Processo, América e O Castelo. Os seus contos são julgados como verdadeiros e realistas, em contato com o homem do século XXI, pois os personagens kafkanianos sofrem de conflitos existenciais, como o homem de hoje. No mundo kafkaniano, os personagens não sabem que rumos podem tomar, não sabem dos objetivos da sua vida, questionam seriamente a existência e acabam sós, diante de uma situação que não planejaram, pois todos os acontecimentos se viraram contra eles, não lhes oferecendo a oportunidade de se aproveitar da situação e, muitas vezes, nem mesmo de sair desta.

Apesar de tudo isso ele é um autor brilhante e dependendo de como se encara sua obra, ela tem muito a nos ensinar. Por isso além de ser meu autor favorito, também serve de inspiração pra alguns de meus contos, como o que verão a seguir:

O tempo

Já se passavam das 9h da manhã quando ele finalmente despertou de seu sono intranqüilo, ainda meio desorientado tentava levanta-se enquanto abria olhos. Sentou a beira da cama e estendendo o seu braço esquerdo e alcançou seus óculos que estavam sobre um velho criado mundo, móvel que fora feito sob encomenda, de uma madeira nobre que há muito tempo ele não lembrava o nome, era objeto bem simples que possuía uma gaveta com chave dourada e uma pequena porta trabalhada em detalhes coloniais, mas de grande valor sentimental, pois pertencera a seu avô nos áureos tempos de sua família, além dos óculos, estava também sobre ele um despertador verde, sem pilhas, do tipo comum vendido por qualquer camelô na esquina, e um livro antigo de páginas amareladas que falava alguma coisa sobre como conseguir amigos, aberto sem motivo aparente, na página setenta e dois onde se podia ler claramente a palavra “cordialidade”, destacada em uma elipse azul.
Colocou os óculos, e observou que as paredes de seu pequeno quarto estavam precisando de uma nova pintura, mas apesar da necessidade, o aspecto envelhecido de seu dormitório não o incomodava, e enquanto permanecia ali sentado e imóvel, o sol que entrava através do vidro cinzento da janela a sua frente, aquecia-lhe a pele de forma revigorante, causando-lhe uma sensação de alegria momentânea. Olhou novamente para as paredes descascadas, tomou fôlego, e em um único movimento levantou-se ao mesmo tempo em que estendia os braços para o alto, na tentativa de alongar seus músculos, e expelia todo o ar dos pulmões. Terminado o ritual do despertar, voltou sua atenção para a cama, de lençóis brancos desarrumados, e instantaneamente começou a colocá-la em ordem, da mesma forma que sua mãe o ensinara quando ainda era uma criança, gesto cotidiano que sempre lhe trazia boas lembranças.
Olhou com satisfação para o bom trabalho que acabara de realizar e congratulou a si mesmo com um sorriso espontâneo, passou a mão nos cabelos emaranhados partindo em direção ao banheiro. Foi quando veio à surpresa, ali bem diante dele, estava um velho de aspecto frágil e olhar distante, mas firme. Olhar de quem viu uma vida toda passar através de anos, como se fossem minutos. Parado sem mover um músculo, observando.
Passado o espanto inicial e percebendo a inatividade do velho, ele também não disse nada, apenas parou e repetindo o gesto de seu inesperado visitante, observou. Minutos de observância transformados em horas. Sem nada dizer, decidiu então ignorar a presença inoportuna do velho senhor de cabelos grisalhos, retomando seu caminho em direção ao banheiro de azulejos azuis, abriu o pequeno armário sobre a pia, retirou um tubo de creme dental, quase vazio, e uma escova de formato anatômico, que lhe fora indicada por seu dentista, apertou com força o tubo que expeliu uma pequena quantidade de pasta, escovou vigorosamente os dentes, de maneira continua, mas irregular, deixando formar uma espuma branca que escorria pelo queixo e pingava no chão, cuspiu o liquido que se formou em sua boca, abriu a torneira com a mão esquerda, e com a outra em forma de concha, capturou a água com a qual inundou sua boca, lavando o resto do creme.
Despiu-se, e como se fosse um imenso ato de coragem, partiu em direção ao banho frio sem vacilar. As gotas que caiam do chuveiro lhe atingiam como milhares de agulhas, o sabonete neutro, aliviava a dor e o xampu anticaspa ardia-lhe nos olhos. Em minutos estava tudo terminado, secou-se com uma toalha áspera de cor marrom, bastante desbotada, que estrategicamente tinha o seu lugar reservado ao lado do box do banheiro, agora completamente seco e nu, caminhou de volta ao seu quarto onde mais uma vez deparou-se com figura do velho, continuou ignorando-o. Foi em direção ao guarda-roupa, que comprara a pouco tempo, abriu uma das gavetas da qual retirou uma cueca de algodão, lançou-a em cima da cama. Da primeira porta do lado esquerdo, pegou uma camisa de linho azul, que lhe foi dada de presente por um amigo, diferente do que fizera com a cueca, depositou a camisa cuidadosamente sobre cama. Da segunda porta que estava ao seu lado direito, retirou uma calça preta, bastante usada, mas em bom estado, e a colocou junto à camisa em cima da cama. Feito isso, olhou mais uma fez em direção ao seu visitante, que continuava ali parado no mesmo lugar, algo começou a lhe parecer familiar naquela estranha figura, começou a gostar de sua presença, tendo em vista que sempre fora um solitário.
Vestiu-se, procurou o sapato que tinha as meias pretas cuidadosamente enroladas e enfiadas dentro dos mesmos, em baixo da cama onde havia deixado no dia anterior. Estando agora elegantemente vestido, faltava-lhe pentear o cabelo, caminhou em direção a um enorme espelho fixado na parede próxima ao banheiro, olhou em volta e surpreendeu-se ao não ver mais o seu visitante, mas também não deu muita importância ao fato dele haver sumido da mesma forma misteriosa como surgira. Voltou-se para o espelho e foi então que viu mais uma vez aqueles olhos distantes e firmes do velho. Ficou assustado ao descobrir que estivera observando a si mesmo, espantou-se ao descobrir suas rugas, foi tomado pelo terror ao constatar que ele não viu o tempo passar. Confuso e agitado deslocou-se rapidamente para trás tropeçando em suas próprias pernas, atingindo com a cabeça o velho móvel de família, e bem ali caído ao lado da cama, em um lago de sangue, como ultima tentativa de se levantar, apoiou-se em seu leito e trouxe para si os lençóis brancos, que havia arrumado com tanto zelo, respirou vagarosamente pela ultima vez, aproveitando ao máximo o resto da vida que não conseguia lembrar, fechou os olhos e desistiu.

Podemos alterar o futuro a qualquer momento, para isso, precisamos somente aprender a utilizar o presente.

Tony Ferreira

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Um comentário:

  1. Meu Jesus da Gloria eu qz n termino de ler isso. Tony e suas inspiracoes. Gostei muito!!!

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