Logo que ouviu os primeiro pingos transformarem o telhado em um grande instrumento de percussão, Julio atravessou o corredor com uma velocidade olímpica, abriu a porta e se entregou ao açoite gelado da chuva que despencava durante madrugada, o cheiro do mato molhado e o frio animador lhe transportava de volta a um momento qualquer da infância. Gargalhou ao lembrar-se da sua mãe gritando:
– Sai da chuva menino! Olha que tu vais pegar uma gripe.
Para uma criança, a preocupação de mãe nunca valerá mais que um momento de diversão.
Correu de um lado para o outro sem direção, várias vezes, sentia-se o dono da rua e depois de alguns minutos, esgotado pelo cansaço, parou para pegar fôlego. Suas roupas encharcadas pareciam que estavam pesando uma tonelada e em momento de insensatez tratou logo de livra-se delas, pronto agora sim se sentia verdadeiramente uma criança, correndo nu embaixo de uma chuva torrencial em plena madrugada de domingo.
Pena que os cachorros da vizinhança não achavam a mesma coisa, logo a sinfonia canina começou a embalar sua loucura. As luzes da vizinhança se acendiam uma a uma, janelas se abriam, portas eram destrancadas, olhares sonolentos se esforçavam para ver o que estava acontecendo, enquanto Julio apenas corria.
Uma sirene se fez soar a distância, som que o trouxe de seu sonho infantil. Pegou as roupas no chão e novamente com uma velocidade impressionante, entrou em casa, tomou um banho quente e dormiu até 10 da manhã, acordou inteiramente relaxado e satisfeito com sua aventura. Quinze minutos depois saiu para buscar o jornal e encontrou com os vizinhos comentando o estranho fato da madrugada, deixou escapar um leve sorriso pelo canto esquerdo da boca, cumprimentou a todos e entrou novamente para estender as roupas molhadas no varal e lembrou-se do quanto é bom voltar a ser criança.

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